terça-feira, 9 de abril de 2013

Como é Síndrome de Asperger para alguém que tem Asperger

Um interessante vídeo de um adolescente que tem Asperger. Ele explica didaticamente como é conviver com a síndrome. 




terça-feira, 12 de março de 2013

Adolescência ou "aborrescência"?


É consenso em nossa sociedade que o período da adolescência é uma fase crítica na vida das pessoas. A criança inicia uma série de transformações, mas elas não são apenas fisiológicas. Nesse período da vida ocorrem importantes processos cognitivos e sociais que nem sempre são vividos de forma tranquila.

As alterações hormonais às quais os meninos e meninas estão sujeitos transformam não apenas o corpo, mas a percepção que o indivíduo tem do mundo e de si mesmo.  Alteração de voz, amadurecimento dos órgãos sexuais, crescimento de pelos pubianos, início do ciclo menstrual, o retorno da libido (saída do período de latência), início do período cognitivo operatório concreto (fase descrita por Jean Piaget que se caracteriza pela adoção da habilidade mental de se pensar em termos abstratos e realizar operações lógicas ao nível das ideias), tudo isso vêm acompanhado de uma radical mudança no status social que o indivíduo ocupa.

Nessa fase certos comportamentos que anteriormente eram aceitos como naturais passam a ser considerados imaturos. É nesse momento que o sujeito começa a participar de forma mais ativa e consciente do convívio familiar. Ou seja, é quando o sujeito passa a ter maiores responsabilidades com a manutenção da casa, compreender melhor os conflitos familiares e principalmente ter que se posicionar diante de situações complexas, muitas vezes necessitando auxiliar o gerenciamento de crises.

O indivíduo começa a perceber de modo muito mais claro os conflitos conjugais vivenciados pelos pais, as crises financeiras, os conflitos sociais e as primeiras decepções amorosas. Definitivamente essa não é uma fase nada fácil.

Por outro lado, os pais assistem a tudo de cabelo em pé. A grande maioria não sabe lidar com os momentos vivenciados pelos filhos e são invadidos pelo sentimento de impotência. Presenciar essa fase muitas vezes significa para os pais reviver os próprios conflitos da adolescência.


Reviver os conflitos da adolescência através do filho leva alguns pais a se sentirem paralisados, tornando-se incapazes de auxiliar e orientar os adolescentes de modo adequado. Alguns erros comuns são cometidos nessa fase. Por exemplo, os pais que observam que os filhos estão iniciando sua vida sexual e preferem ignorar os sinais. Nesse caso, às vezes os pais se apoiam em crenças religiosas. Julgam que o indivíduo deve manter-se casto até o casamento. Outros utilizam-se da vã afirmação de que os filhos ainda são muito novos para tal situação.

Já outros pais preferem adotar uma posição autoritária diante desse conflito. Lembro-me de uma senhora que estava desesperada e veio conversar comigo. Sua filha iniciou o namoro com um rapaz o qual a senhora não julgava ser uma pessoa adequada para ela. A mãe chorava e brigava diariamente com a filha sem que isso surtisse nenhum efeito positivo. Ao contrário, a relação das duas apenas estava se desgastando a cada dia. Ela expôs a situação e perguntou qual atitude adequada deveria tomar. Contou-me que proibiu a menina de sair de casa e de fazer as atividades que mais gostava. Após um longo diálogo, chegamos à conclusão de que essa posição assumida pela mãe só daria mais força àquele amor proibido. Ora, retirar toda a distração e atividade que davam prazer à filha era uma forma de fomentar a relação, afinal, a menina começou a ter mais e mais tempo para devanear sobre o amado.

Um mês depois essa mesma senhora veio conversar comigo super feliz. A garota havia terminado o namoro sem que ela interferisse e a relação das duas ficou mais próxima e sólida. Que milagre aconteceu? A mãe parou de brigar com a filha, deixou de ser um empecilho para o relacionamento e se posicionou como alguém em que a menina podia confiar e pedir auxílio. Com o tempo, a menina percebeu que realmente o tal garoto não era aquilo que ela achava e resolveu por fim ao relacionamento.

Qual lição podemos tirar desse exemplo? É inegável de que os pais precisam impor limites claros e objetivos aos filhos. Contudo, muitas vezes é importante adotar uma posição amigável onde os pais deixam de ser um rivais e passam a ser pessoas em quem o filho pode confiar. Esse é o caminho mais saudável para manter a relação e auxiliá-lo em seu momento de crise. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Entrevista: saúde sexual da mulher



Recentemente respondi uma entrevista para o Correio Brasiliense sobre os fatores que podem influenciar a saúde sexual da mulher. Transcrevo abaixo as respostas às questões que me foram apresentadas.



Existe mesmo o ponto G? Pergunto isso pois existe ainda muita discussão sobre a existência dele. Se sim, onde ele está?

O ponto G, ou ponto Gräfenberg, é uma região um pouco rugosa que fica de 4 a 5 centímetros na parte anterior do canal vaginal. Ele ficou famoso por ser uma região que se entumece e que fica mais sensível quando a mulher fica excitada.

O importante com relação ao ponto G é que algumas mulheres sentem muito prazer quando estimuladas nessa região, contudo, isso varia de mulher pra mulher. Existem mulheres que não sentem diferença, já outras ficam com vontade de urinar quando ele é estimulado. A polêmica em torno do ponto G é a crença de que encontrá-lo e estimulá-lo é uma garantia para o orgasmo feminino. Porém, há que se lembrar que isso é um mito. O orgasmo feminino depende muitas outras variáveis, como o nível de excitação fisiológica e psicológica, a estimulação de outras zonas erógenas, o relaxamento da mulher, dentre outras.

A maioria das mulheres sentem mais prazer na parte externa do órgão sexual feminino. Para que elas alcancem o orgasmo é essencial a estimulação do clitóris e os pequenos lábios. Sendo assim, é mais provável que essas mulheres tenham orgasmo através do sexo oral, do que através da busca pelo ponto G.
                                                
O que são pontos erógenos? A vagina tem muitos? Onde estão?

Pontos erógenos são regiões onde existem maior concentração de terminações nervosas, sendo assim quando estimulados esses pontos são capazes de produzir maior excitação sexual. No corpo humano existem vários pontos erógenos, como por exemplo, nuca, pescoço, lóbulos da orelha, mamilos, coxas, nádegas, etc. De modo geral, os órgãos sexuais são os pontos erógenos mais contundentes, ou seja, capazes de provocar maior excitação sexual.

É notório que a capacidade de excitação que a estimulação desses pontos varia de pessoa pra pessoa e de situação. Sendo assim, um ponto erógeno capaz de excitar extremamente um determinado sujeito, pode, em uma determinada situação, ser fonte de desprazer.

O organismo feminino, de modo geral, possui mais pontos erógenos espalhados pelo corpo do que o organismo masculino. E no órgão sexual feminino existem várias regiões erógenas,
Identificar quais as regiões são capazes de gerar mais excitação na mulher é algo muito importante para uma relação sexual prazerosa, contudo, há que se lembrar que nem sempre o que excita uma mulher irá excitar outra.

Com que frequência a mulher deve ir a um ginecologista?

É recomendável que a mulher vá ao ginecologista pelo menos uma vez ao ano independentemente de ela possuir uma vida sexual ativa. Contudo, se a mulher possuir algum tipo de disfunção ou doença, como, por exemplo, ovário policístico, é recomendável que aumente o número de consultas ao médico.

É importante lembrar que muitas doenças sexualmente transmissíveis são muito mais agressivas no corpo da mulher. Um bom exemplo é o HPV. Ele não causa nenhum transtorno no homem, contudo no organismo feminino pode gerar câncer do colo do útero. Sendo assim é indispensável fazer o controle anual para evitar que algo simples transforme-se em uma doença grave.

Quais doenças podem interferir na saúde sexual da mulher?

Essa é uma pergunta complicada, pois na verdade, de um modo geral, todas as doenças são capazes de interferir na libido feminina, sendo assim, acabam atrapalhando a saúde sexual da mulher. A relação sexual é uma atividade que demanda muita energia, quando o organismo encontra-se abatido ele tende a concentrar toda sua força no combate àquilo que lhe causa mal, sendo assim, sobra pouca energia para atividade sexual.

Mas algumas doenças crônicas, como a depressão e o estresse, acabam por interferir de forma mais danosa na vida sexual da mulher, devido a sua longa duração.

Alguns medicamentos podem diminuir a libido? Como eles agem e que medicamentos são esses?

Sim, vários medicamentos podem diminuir a libido, principalmente aqueles que interferem no equilíbrio hormonal. Os principais medicamentos que prejudicam a libido são aqueles que diminuem o nível de testosterona no organismo da mulher. A testosterona, que é um hormônio conhecidamente masculino, está altamente ligada à libido feminina, sendo assim, quando esse hormônio está em baixa no organismo da mulher, ela tende a apresentar um menor interesse sexual.

Quais os fatores podem interferir na saúde sexual da mulher?

Não há como cindir os aspectos da vida do sujeito, sendo assim, vários aspectos são capazes de prejudicar o interesse e desempenho sexual da mulher. Saúde, trabalho, crise na família, tudo isso está ligado à capacidade de deixar se envolver durante o ato sexual.

Atualmente, na clínica, tenho observado que o estresse vem interferindo de modo bastante significativo na vida sexual da mulher. A acumulação de responsabilidades acaba por esgotar a mulher física e mentalmente, sendo assim, na hora da relação, muitas vezes, a mulher encontra-se tão casada ou preocupada que não consegue sentir prazer durante a relação. Ouço o relato de mulheres que apenas querem que o sexo acabe logo para que elas possam ir dormir ou resolver mais algum problema. Isso é extremamente danoso tanto para a saúde da mulher, quanto para a relação com o parceiro.

Existe um estimulante para mulheres? Em quais casos ele é indicado?

Sim, existem algumas medicações capazes de estimular o desejo nas mulheres. Geralmente indica-se para casos onde há alguma alteração hormonal, como por exemplo, a reposição de testosterona. Contudo, conforme disse acima, muitas vezes o rebaixamento do desejo sexual não é uma questão dessa ordem. O desinteresse sexual pode ser causado por outras variáveis, como o estresse, a depressão e até mesmo a ausência de desejo pelo parceiro.

Algumas mulheres reclamam de ausência de desejo, mas na verdade observa-se que falta desejo pelo esposo ou parceiro. É natural que isso aconteça, e observa-se que quando ela se envolve em outra relação seu desejo volta com toda a intensidade.

No Reino Unido e nos Estados Unidos, cirurgiões plásticos estão ingetando botox no interior da vagina das mulheres, dizendo ser no ponto G, para que elas tenham mais orgasmos. Isso pode ser perigoso?

Sinceramente, acho isso extremamente arriscado. Procedimentos novos sempre representam riscos, pois não sabemos quais serão os efeitos que podem causar no organismo com o tempo. Quando se trata do órgão sexual feminino é mais arriscado ainda. A vagina é um sistema que precisa permanecer em equilíbrio, nela existem fungos e bactérias que vivem em harmonia, quando algo altera-se surgem doenças, como a candidíase. Mexer num sistema como esse é sempre arriscado. Ainda mais por ser um local frágil e altamente vascularizado.

Particularmente acho ingenuidade achar que injetar botox no ponto G irá proporcionar mais orgasmos na mulher. A mulher não goza apenas com o ponto G. Como eu disse, existem vários outros pontos erógenos no organismo da mulher que são capazes de proporcionar o prazer sexual. Além do mais, uma relação sexual prazerosa está ligada a vários outros fatores, como o desejo pelo parceiro, a intimidade, a capacidade de se entregar ao ato, etc.


Quem quiser conferir a reportagem que foi publicada online no site do Estado de Minas, a qual apresenta outras informações, clique no link abaixo: 



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ciúme e possessividade





Recentemente assisti ao filme norte-americano, Simplesmente Amor (2003), que conta várias histórias cruzadas. O filme é uma comédia romântica com uma pitada de drama e nele uma das histórias me chamou especial atenção, a do casal Harry (Alan Rickman) e Karen (Emma Thompson).

Harry, um homem de meia idade, é chefe numa empresa e possui uma secretária jovem e muito bonita. A moça o assedia explicitamente, mas Harry não percebe ou não leva a sério as cantadas da moça. Tudo muda quando, na festa de final de ano da empresa, Karen enciumada o alerta para o assédio da moça. A partir desse momento Harry passa a observar a secretária com outros olhos. O desfecho da história é muito interessante. Ele me fez refletir a respeito do ciúme e me lembrou a sábia frase do dramaturgo Karl Kraus: O ciúme é um latido que atrai os ladrões.

Aparentemente o ciúme faz parte de quase todas as relações amorosas. Contudo, é impensável compreender o ciúme desvinculando-o da noção de posse. “Ele é o meu marido!”, “Mulher minha não faz esse tipo de coisa.”. Não é raro ouvir afirmações desse tipo vindas da boca das mais variadas pessoas. A sensação de posse não respeita gênero, cor, credo, idade ou classe social. A visão do outro como um objeto pessoal, ou seja, de uso exclusivo, é compreendida como algo normal em nossa sociedade. Espanta-me como essa atitude é aceita naturalmente, não apenas pelo “dono”, mas pelo “objeto”, afinal de contas “quem ama cuida”, certo? 

O ciumento tenta controlar todos os aspectos da vida do ser amado. Nas palavras de Proust “O ciúme é muitas vezes uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor”. O ciumento quer saber onde a pessoa vai, com quem conversa, que roupa está usando, porque demorou a chegar em casa, porque não atendeu o telefone e até mesmo que cueca/calcinha a pessoa está usando. Nada escapa aos seus olhos. 

Conheço pessoas que deveriam trabalhar na ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) tamanha sua habilidade para espionagem. Elas descobrem a senha de e-mail dos companheiros, fazem vigília no facebook, interceptam mensagens e ligações, descobrem até emails que a pessoa nem lembravam que existiam. É fantástica a habilidade de investigação e vigilância dessas pessoas.

Sempre que pergunto o motivo de tamanha desconfiança existe uma lista interminável de justificativa. “Ele mantém contato com uma ex”, “Ela me traiu em mil novecentos e guaraná com rolha”, “Ele era muito mulherengo”, “Eu não confio nos amigos dela”. Enfim, para o ciumento tudo que ele faz tem uma razão inquestionável. Por outro lado, não são raras as histórias como a de Harry, onde a pessoa objeto de ciúmes só percebe que existe um outro disponível porque o parceiro demonstra isso a ela.

Seria inocência pensar que uma relação em que há ciúme é culpa exclusiva do ciumento. As relações são construídas e a dominação não surge de uma hora para a outra. Não é da noite para o dia que a mulher resolve querer determinar quem o parceiro irá contratar como secretária, tampouco o homem acordará de manhã querendo saber cada passo da companheira. Ainda no início da relação observa-se o ciume germinando. O rapaz não deixa a moça sair com a saia “x”, pois os homens irão olhar e... ela aceita. “Se ele tem ciume é porque me ama!”. A namorada começa a implicar porque o namorado passa perfume para ir trabalhar e... ele para de usar perfume. “Ah... mulher é assim mesmo, insegura.”.

A teia é tecida lentamente, a cada dia é um impedimento novo. “Namorado meu não viaja sozinho”, “Mulher minha não tem amigo homem”. Quando o casal se dá conta as amarras na relação tornou-se algo sufocante. Aparentemente não há vida fora do casamento/namoro, contudo, é insuportável viver dentro dele.

Se por um lado o ciume é naturalizado socialmente, por outro a sociedade não lida bem com relações baseadas na confiança e liberdade. As pessoas olham com um ar de estranhamento quando uma mulher casada viaja com as amigas ou quando um rapaz vai a um show sem a namorada. É engraçado ver o olhar de espanto das pessoas quando alguém pergunta “sua esposa deixa você fazer isso” e recebe como resposta algo do tipo “eu não preciso de pedir autorização para ela”.

O primeiro passo para aprender a lidar com esse sentimento é compreender que não existe posse sobre o ser amado. Ninguém é dono de ninguém. Se alguém está em um relacionamento com uma pessoa é por escolha dele e não há nada que mude esse fato. Relação de posse sobre outro ser humano chama-se escravidão e não amor. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Luto



Na era da informação, onde tudo tem que funcionar do modo mais rápido e eficaz possível, parece que a vida tornou-se instantânea. Não há tempo a se perder. As pessoas estão sempre atrasadas, sempre correndo. Corre-se atrás da vida... corre-se da vida.

O tempo que já era escasso, quase não existe quando o assunto envolve desprazeres. Dor? Analgésico! Ansiedade? Ansiolítico! Tristeza? Antidepressivo! Há sempre uma resposta pronta que nos impulsiona para manter o movimento. Se a pessoa não está sorrindo o tempo todo existe algum problema, é necessário ir ao médico e tomar uma medicação.

Lembro-me de que há alguns anos atrás, quando eu trabalhava para num posto de saúde de uma prefeitura no interior de Minas, encaminharam-me um senhor que me disseram que estava deprimido. O senhor, já com mais de setenta anos, havia perdido a companheira com quem viveu durante mais de cinquenta anos. A falecida havia sido acometida por câncer e sofrera muito antes de morrer. O viúvo estava muito triste e amuado, havia emagrecido muito e era pego constantemente com lágrimas nos olhos.

Não esqueço o momento que o vi. Um senhor de pele castigada pelo sol, com um olhar singelo e um sorriso melancólico. Seu cabelo estava cortado, a barba feita, as roupas limpas e bem passadas. Cumprimentou-me um pouco tímido e pediu desculpas (desculpas pelo o que?). Disse-me que mandaram ele vir para a consulta com a doutora e por isso ele tava lá, mas que não tava sentindo nenhuma dor não. Só o pé, mas já estava melhorando.

Conversamos durante uma hora e meia. Ele contou-me sobre sua hortinha; sobre suas dificuldades na cozinha, motivo pelo qual havia emagrecido tanto; sobre seu machucado no pé, que o fazia ir ao posto de saúde trocar o curativo três vezes por semana e, é claro, sobre a vida e morte de sua esposa.

Quando ele foi embora reuni a equipe médica para conversar sobre o caso. Falei que aquela tristeza que o senhor sentia não era nem de longe depressão. Pelo contrário, ele estava caminhando muito bem para quem havia perdido a esposa há tão pouco tempo (menos de dois meses), ele estava se cuidando, ia ao posto, se alimentava (como podia, pois havia perdido a pessoa que providenciava sua comida), enfim, estava tentando continuar a vida. Concluí minha fala dizendo que se ele estivesse dando pulos de alegria eu recomendaria investigar melhor os motivos que levaram ao óbito sua esposa.

Ora... chorar a morte de uma pessoa amada não é apenas normal, é saudável. O luto é um processo importante para a saúde psíquica da pessoa. É necessário respeitar o luto daqueles que perdem, independentemente do que se perder. Um companheiro, um emprego, uma amizade, uma casa ou um sonho, a perda precisa ser vivida e trabalhada. É necessário compreender que esse é um processo natural e importante, respeitando quem está vivendo esse momento e dando o suporte necessário para que a pessoa consiga vivenciar e superar esse momento.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Maternidade e culpa


Não há dúvidas de que ter um filho é uma experiência inigualável na vida de uma pessoa. Gerar uma vida, acompanhar seu crescimento e desenvolvimento, educar um indivíduo, cuidar, amar e (por que não?) ser amado incondicionalmente é uma vivência transformadora na vida de uma pessoa.

Contudo, a experiência da maternidade não é tão passíva e prazerosa quanto a sociedade retrata. Ela exige um constante esforço e muito trabalho. A ideia de que a mulher nasce para ser mãe é mais um dos mitos que povoam nossa sociedade. Assim como ninguém nasce mulher, homem, professor, jogador de futebol, religioso ou estudante, ninguém é mãe a partir do momento que fica sabendo da gravidez. É necessário perceber que ser mãe é uma construção de identidade, sendo assim há vários conflitos para que essa identidade se constitua.

A demanda constante por carinho, atenção e cuidados acaba por tornar um grande desafio a tarefa da maternagem. A situação torna-se mais drástica em nossa sociedade uma vez que as mulheres estão inseridas no mercado de trabalho e participam ativamente no sustento da família. Existe uma acumulação de responsabilidades em cima das mulheres, o estresse gerado por essa pressão em que se encontram as mulheres têm sido fonte de adoecimento.

Além disso, observa-se que a maternidade atualmente vem envolta por um grande sentimento de culpa. Recentemente ouvi na clínica uma mãe se culpar por admitir que um dos maiores prazeres que sente é tomar um cafezinho após o almoço. A fala daquela mulher (“Eu sei que é errado, que é egoísmo meu. Eu deveria me sentir bem com algo relacionado às minhas filhas”) caracteriza bem o que muitas mulheres vivenciam. Outra mulher uma vez confessou angustiada que se sentia aliviada quando ia para o trabalho e podia se desligar um pouco dos filhos. Ela recriminava-se enquanto mãe, pois não condizia com a imagem retratada socialmente. Uma mãe não pode gostar de trabalhar, ela tem que se sentir feliz apenas quando está perto do seus filhotes?

Não, definitivamente não é errado se sentir bem com algo que não envolva os filhos. Não é egoísmo nem falta de amor sentir-se aliviada quando se tem um tempo só para si. E não é ser uma mãe ruim querer esse tempo. O que é errado é achar que a mulher tem que dar conta de tudo sozinha. Ser mãe é vivenciar sentimentos ambivalentes (contraditórios) em relação aos filhos. O amor  vêm acompanhado de angústia, impotência, cansaço e até mesmo raiva e, com os filhos não é diferente.

É evidente que várias mulheres se sentem culpadas por não poder se dedicar mais aos filhos, por não estarem com eles todos os dias. Mas é notório que muitas também se sentem culpadas por sentirem-se esgotadas devido a maternidade. Ser mãe não é só sentir coisas boas, sim, elas existem e são incontáveis, contudo a exigência dessa atividade também trás sofrimento. É necessário propiciar espaços para que as mulheres compartilhem suas angústias com relação à maternidade. E, ainda, fazê-las compreender que antes de serem mães elas são seres humanos, como qualquer um. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Inércia

Um conceito da física muito interessante é a inércia, mas o que é  inércia? Segundo a Primeira Lei de Newton, a inércia é o estado que se encontra matéria quando um corpo não está submetido à ação de forças, ou está submetido a um conjunto de forças de resultante nula. Sendo assim, quando este corpo está parado, permanece parado, e se está em movimento, permanece em movimento, em linha reta e a sua velocidade se mantém constante. Um bom exemplo da atuação da inércia é quando estamos deslocando em algum meio de transporte. Quando estamos dentro de algum veículo como, por exemplo, um carro, e ele arranca, o nosso corpo tende a ir pra trás. Assim que ele estabiliza a velocidade alcançamos o equilíbrio. Por outro lado, se  o carro frear o nosso corpo é jogado para frente.


Há momentos em que parece que nós também nos encontramos sob o efeito da inércia em nossas vidas. A pessoa não está satisfeita com o trabalho, todavia permanece fazendo aquela atividade. Não há mais amor no casamento, mas, fazer o que? Já está casado mesmo. Não gosta do bairro onde mora, contudo continua naquele lugar. Não acredita mais em Deus, porém reza o Pai Nosso toda noite. As atividades diárias tornam-se quase um ritual, levanta-se sempre no mesmo horário, come-se sempre as mesmas coisas, caminha-se sempre pelos mesmos trajetos. Já está tudo lá, pronto, é só continuar seguindo. Sorri porque tem que sorrir, come porque tem que comer, dorme porque tem que dormir. Não há prazer, apenas rotina.

A física diz que para se quebrar a inércia é necessária uma força oposta que seja maior que a soma de todas as forças que estão atuando sob o corpo. Ou seja, um carro pequeno não é capaz de parar um caminhão desgovernado, ao contrário, ele será arrastado junto com o caminhão. Na vida não é diferente, um pequeno evento é incapaz de mudar a situação. Por exemplo, uma discussão boba com o colega do trabalho não fará com que a pessoa peça demissão. Para mudar é necessário esforço, empenho.


Alguns eventos extraordinários são capazes de quebrar a inércia naturalmente. A morte de uma pessoa querida, uma doença, uma crise financeira, ou até mesmo um novo amor. Elas possuem um poder extraordinário para a transformação. Mas será que é necessário esperar que algo nesses moldes aconteça para que ocorra uma mudança?


É claro que não. O primeiro passo é reconhecer quais os ganhos que se têm em manter a situação. Muitas vezes a pessoa permanece em determinada condição por comodismo, conveniência, ou até mesmo medo. Se por um lado o salário bom, a estabilidade do casamento, a segurança do que já é conhecido, tudo isso interfere para a manutenção da rotina, por outro a insegurança do novo e a incerteza no final do caminho impedem que se dê o primeiro passo.


Romper a inércia é arriscar. Não há garantias de que será melhor, ou de que se encontrará a felicidade, mas ainda assim há aqueles que preferem tentar. No fim, parafraseando Nietzsche, “o importante é a coragem de ser si mesmo”.